Um texto sobre 8M
Essa nova organização e modo de vida - fixo, não nômade - exigiu outras organizações e uma delas foi fundamental para o que viriam logo depois a nível histórico: a divisão social do trabalho. Plantar e se manter num mesmo local exige uma organização mais complexa. Nem todo mundo consegue ou dá conta de fazer tudo, é preciso distribuir tarefas e ofícios e é aí que está a chave para o estabelecimento da sociedade atual. É no neolítico, de modo geral, que temos a mudança chave na história da humanidade: a divisão sexual do trabalho.
Mas o que isso significa? Quem parir deve, preferencialmente, cuidar de sua cria, talvez em grupo junto de outros sujeitos. Para cuidar desta cria é preciso estar presente, no recinto, é arriscado sair para outra tarefa e o pequeno ser humano morrer, desaparecer. Então quem parir, cuidará. E quem cuida está em casa, logo organiza este espaço, da conta das exigências do que vem a ser um lar. Se ensina a cria a caminhar, comer, existir no mundo em que nasceu. E quem não pariu acaba desligado de tais obrigações. Essa organização é fundamental para o mundo de hoje ser o que é.
No curso da nossa história, isto é, da humanidade, tais organizações ganham complexidade, novos significados e propósitos. Torna-se necessário preencher uma cidade-estado de pessoas, de sujeitos, logo é preciso que nasçam mais e mais pessoas. É preciso compor grandes exércitos, templos, comércios, enfim, diversos espaços para que o sistema político e econômico seja mentido e funcione conforme o imaginado. E quem fica responsável por preencher o mundo de outros seres humanos? Mulheres.
Imagine uma guerra, uma grande batalha cuja disputa é um território inimigo. No momento em que o adversário vence e toma tal espaço, qual é a primeira atitude do exército vencedor? Nem sempre isso fica claro nos livros, mas a primeira ação daqueles homens é estuprar o maior número de mulheres disponível. É preciso dominar aquele território e, já que a guerra é uma manifestação de poder masculina, o exercício desse poder acontece sobre corpos de mulheres. O falo é também símbolo de poder, não se trata de sexo ou tara, é poder, é dominar o território através do outro. Os homens daquele espaço ou são mortos ou são escravizados de alguma forma. Mas as mulheres são dominadas através da violência sexual que irá gerar herdeiros também, do mesmo sangue do novo conquistar. O estupro pós tomada de território é estratégico no exercício de poder e na criação de uma nova linhagem.
Será que, ao narrar a grosso modo tais questões, fica claro o ponto que quero chegar?
A estrutura que se forma a partir destas organizações tem um nome e se chama patriarcado, um sistema social e cultural centralizado e que favorece os homens, especialmente homens brancos heterossexuais. É esta estrutura que busca explorar o potencial reprodutivo de seres humanos fêmeas, de mulheres, para que continuem parindo e servindo ao mesmo propósito há, pelo menos, 5mil anos.
Mulheres são o outro, o exemplo é o homem. Sendo o outro, não podem ser seres humanos, estão fadadas a serem meros objetos para o bem uso de homens. Elas precisam ser dóceis, amáveis, delicadas, submissas para cumprir o principal papel que é parir. Parir para manter diversos sistemas e estruturas, sobretudo o patriarcado.
Aqui o gênero funciona como um sistema opressor, não há nada de errado em olhar por este viés. O papel social empregado ao corpo que nasce com vulga, útero e ovários é da docilidade. São estes órgãos e corpos que determinaram toda uma organização social no mundo - com raríssimas exceções. São estes corpos hoje os mais explorados, violentados, comercializados, objetificados e pobres no mundo - especialmente se sua pele for escura. A opressão parte de uma divisão sexual. É daí que as demais opressões que passam pelo corpo e gêneros se originaram.
Conhecer a história das mulheres pode ser a maior arma contra o sistema de opressão. Por isso, mulher, conheça tua história! Entenda que o teu papel aqui, hoje, foi traçado há muitos milênios e não foi nós mesmas. É uma imposição, marcada ainda no útero de nossas mães com um enxoval rosa e na primeira violação de nossos corpos materializados em brincos nas nossas orelhas. É no detalhe que nossa destino fica preestabelecido.
Tratam nossos corpos como incubadoras ambulantes - e até transformam isso num negócio -; nos negam a humanidade ao tomar nossos corpos como objeto de prazer; a autonomia e liberdade vendida por aí serve ao patriarcado, pois ainda nos levam ao mesmo destino. Quem ousa sair do caminho é queimada, bruxa! Casar, engravidar, parir e sustentar um sistema econômico e social. "Pode sim mostrar teu corpo, afinal, ele é para isso mesmo, ser belo e exposto para o prazer alheio, mas siga com tua missão, por favor".
A reflexão foi longa. O recado final neste 8 de março é: mulher, estude e conheça tua história! Neste caso, apenas o conhecimento irá nos deixar, no mínimo, atentar e, quem sabe, um dia libertas. Por isso, deixo algumas sugestões que, para mim, foram essenciais para pensar a origem de toda nossa opressão.
- Sexo Invisível - Olga Soffer
- O Segundo Sexo - Simone de Beauvoir
- História da Beleza - Georges Vigarello
- História da Beleza no Brasil - Denise Sant'anna
- Minha História das Mulheres - Michele Perrot
- História das Mulheres no Brasil - Mary Del Prior (org)
- Nova História das Mulheres no Brasil - Carla Pinsky (org)
- Uma História do Feminismo no Brasil - Céli Regina Pinto
- Gênero, Sexualidade e Educação - Guacira Lopes Louro
Com carinho e luta, Kamyla.
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